terça-feira, 1 de julho de 2014

Noite

Chegou a noite e aquela mulher, que já havia aprendido a lidar com as manias de sua parceira, mais uma vez atendia o telefone.
Era ele, o homem que lhe oportunizara uma grande paz...
Ela sabia, que se, deixasse a solidão assistindo algum filme, quando retornasse, ela iria questionar cada minuto vivido longe dali.
Era inacreditável os diálogos das duas. Enquanto uma necessitava da presença da outra, a outra não fazia tanta questão da presença da primeira. Não que a Solidão não pudesse viver ali, não que ela não fosse "boa" companhia... De forma alguma...  A Solidão era, na verdade, por muitas vezes a melhor companheira.

Mas naquela noite, recebendo aquela tentadora oferta... Uma pessoa culta e com tantas opções... Não teve como não deixar ela lá, descontente, mimada e azeda.

Aquela mulher, cujos olhos já mancharam o rosto de chorar por tristeza, abandono, raiva, indignação... Injustiça... Maquiava-se, mesmo aos tormentos da Solidão lhe dizendo que quando esta retornasse, faria da sua vida um inferno. A mulher, que sabia bem o caminho do inferno, ria... Desdobrava-se em gargalhadas. Ora... Não havia argumentos, não havia nenhuma barganha a ser feita... Ela sabia das dores, das perdas, das cicatrizes que carregava por conta de sua vida e decisões. 
Ela sabia o preço de cada coisa que viveu, que abriu mão por seus valores compromissos. Ela viveu dignamente cada responsabilidade e ao final, imaginando que teria apoio, não recebeu nada. Aliás, recebeu a discórdia, a trapaça e a inveja. Ervas daninhas que não percebeu criarem-se em seu jardim de convivências... Agora, era tarde demais para aparar... Era preciso desfazer-se de cada uma e todas elas de vez. 

Mas essa noite, não! 
Essa noite era para esquecer tormentos, tristezas... Essa noite era para brindar... 
E saiu... 
Deixando aquela mal agradecida em casa.

Foi e deixou-se viver aqueles momentos.
Não poderia se arrepender. Ela desejava viver... Desejava estar com outra companhia que não fosse a fiel Solidão.

Retornou pra casa.
Olhou as paredes amarelas do tempo, a corrosão da vida naquele espaço e pensou:
Estou aqui de passagem, pois a noite, sempre foi e sempre será o meu tempo.

"É a noite que me sinto forte. É a noite que tenho mais alegrias... Foi ao sopro do vento noturno que minhas melhor lembranças aconteceram..."

E nunca mais deixou que alguém lhe dissesse o que era pra ser, fazer ou pensar...
Pois aquela noite, foi, o momento de maior paz, reflexão e liberdade que provará, até então. 


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